Escrito e dirigido pelo estilista Tom Ford, “Animais Noturnos” é um suspense psicológico neo-noir baseado no romance “Tony e Susan” de Austin Wright, lançado em 1993. O filme é estrelado por Amy Adams, Jake Gyllenhaal e Aaron Taylor-Johnson e recentemente foi indicado a 3 categorias no Globo de Ouro (veja aqui).

Susan (Amy Adams) é uma negociante de arte que se sente cada vez mais isolada do parceiro (Armie Hammer). Um dia, ela recebe o manuscrito de um livro de autoria de Edward (Jake Gyllenhaal), seu primeiro marido. Por sua vez, o trágico livro acompanha o personagem Tony Hastings, um homem que leva sua esposa (Isla Fisher) e sua filha (Ellie Bamber) para tirar férias, mas o passeio toma um rumo violento ao cruzar o caminho de uma gangue. Durante a tensa leitura, Susan pensa sobre as razões de ter recebido o texto, descobre verdades dolorosas sobre si mesma e relembra traumas de seu relacionamento fracassado.

Data de Lançamento: 29 de dezembro de 2016 (1h 53min)
Direção: Tom Ford
Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon e mais
Gêneros: Drama, Suspense
Nacionalidade: EUA

Passados sete anos, desde o lançamento do seu primeiro filme, Tom Ford faz seu grande retorno ao mundo cinematográfico com um trabalho tecnicamente e esteticamente mais seguro do que o anterior. Mas apesar de todo o filme não consegue decolar por conta de uma narrativa que é tão ousada quanto rasa de sentido.

Num primeiro momento o filme impressiona pelo deleite visual dos takes de apresentação, fazendo uma bonita correlação entre a vida de Susan – personagem central – e o meio artístico em que ela está inserida, através da simetria estética dos enquadramentos e do glamurosa demonstração do alto padrão de vida que ela leva. É um ponto de acerto no filme, completamente direcionado através da percepção requintada da personagem de Amy Adams, que como diretora de uma grande galeria de arte transita por ambientes dotados de uma estética particular.

No que diz respeito à narrativa, temos um filme divido em duas storylines bem diferentes, que conversam entre si de uma forma estranha. A primeira diz respeito à vida real de Susan e a segunda faz parte da narrativa do manuscrito do livro de Edward (Jake Gyllenhaal), seu ex-marido.

A primeira bifurcação é centrada na existência de uma artista fracassada que se contentou com a profissão de galerista e vive desgostosa com seu casamento e com o rumo que sua vida levou. A olho nu, tudo nela é invejável – rica, marido bonito e igualmente rico e casa dos sonhos – mas vista de perto, a vida de Susan é inexpressiva e existencialmente vazia. E aqui abro parênteses para falar sobre a maravilhosa atuação de Amy Adams que transparece todo esse vazio existencial através da tristeza no olhar, demonstrando o resultado de um trabalho de construção de personagem louvável. Ou seja, mais um ano de grandes personagens para a atriz que aparece ainda em “A Chegada“, com chances de indicação ao Oscar 2017.

A segunda bifurcação é centrada na família de Tony (também interpretado por Jake Gyllenhaal), um professor que vive no deserto do Texas e passa por maus bocados ao se deparar com uma gangue de rednecks na estrada enquanto viajava de férias com sua família. À noite e sem serviço no celular, eles são brutalmente confrontados pelos criminosos e o desfecho não é dos melhores para Tony, que acaba sozinho e perdido no deserto procurando sua família cujo paradeiro é desconhecido, pelo menos num primeiro momento. Nesse seguimento vale a pena focar toda atenção na atuação de Aaron Taylor-Johnson, quase irreconhecível. 

A violência e a brutalidade da narrativa do livro contrasta com a fragilidade e a sensibilidade da vida de Susan, mas se interligam através da identificação pessoal que a personagem demonstra ao ler o livro. No entanto, aquilo que poderia ter sido o ponto ápice do filme não é desenvolvido de forma satisfatória pelo roteiro, deixando incerto o que de fato aquela ligação entre as histórias significou para Susan, quase como se toda a violência fosse uma mera desculpa para chocar o espectador.

A história dentro da história é um suspense que aflige tanto quanto o choca, mas que infelizmente cria para si um grande problema: o objetivo de ser minimamente eficiente na narrativa e a infelicidade de não alcançar esse objetivo. Embora o longa tenha quase 2 horas de projeção, parece não existir espaço suficiente para desenvolver bem as duas tramas, o que resulta em uma narrativa oca e atropelada, com poucas explicativas e sem um desfecho digno.

Em suma, enquanto a trama que envolve Edward e Susan promove um drama existencial frágil e bem clichê, que se fosse tratado de forma única e isolada poderia resultar em uma grande novelão mexicano, a trama brutal e violenta vivida pela família de Tony passa na tela à galope, de forma inconsequente, reforçando a ideia de que toda brutalidade aparenta ter sido gratuita e sem critérios.

Animais Noturnos” parece um sexo sem orgasmo, que termina abruptamente sem deixar uma boa impressão, exceto pelo excelente trabalho do elenco e pela estética cuidadosa. E por falar em elenco, a cena da Laura Linney, que interpreta a mãe de Susan, é uma cena cheia de significados, uma das cenas mais cruas de todo o filme. Um trabalho de atuação extraordinário!


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